“Um espectro ronda a Europa, é o espectro do comunismo” (Manifesto do Partido Comunista, Marx, 1848).
Devemos viver até morrer, diz a letra da canção da banda alemã Rammstein. Assim também início essa breve reflexão. E para ser honesto, seria injusto não citar o filósofo romeno Slavoj Sizek, sem ele tais pensamentos não teriam essa cadeia lógica. Valho me aqui de pensamentos extraídos do seu livro “Um mapa da ideologia” (1996) e um artigo do site “Brasil 247”, intitulado “Devemos viver até morrer” (2021), fresquinho, dia 16 de fevereiro.
No ano de 1848, Marx escreveu que havia um fantasma rondando a Europa, era o fantasma do comunismo. Decorridos 173 anos daquele fantasma morto pelos capitalismos que assolaram a sociedade, até desembocar na sua forma mais desonrosa e desumana, o neoliberalismo – que não gosta de gente - mas é claro que as pessoas não sabem disso, Bourdieu vai chamar de Doxa - aquilo que as pessoas aceitam naturalmente como uma coisa boa, mas que na realidade é perversa, uma espécie de “violência simbólica”.
“Até bem pouco tempo atrás era plenamente viável uma ideia de mudança no sistema de produção capitalista, de mudança alternativa ao capitalismo liberal e ao comércio, ao menos duas delas foram satisfatoriamente implantadas, o comunismo na União Soviética e o nazismo na Alemanha”. É o que diz Zizek e todos nós concordamos, um fato histórico.
“Hoje ninguém mais considera seriamente as possíveis alternativas ao capitalismo, enquanto a imaginação popular é assombrada pelas visões do futuro "colapso da natureza", da eliminação de toda vida sobre a Terra”. E aqui podemos colocar o problema da ineficácia da saúde pública causada pelo homem que provoca, transmite, acumula e transmuta esse vírus em nome do sistema capitalista neoliberal que ele defende ideologicamente.
Zizek, “Parece mais fácil imaginar o "fim do mundo" que uma mudança muito mais modesta no modo de produção, como se o capitalismo liberal fosse o "real" que de algum modo sobreviverá, mesmo na eventualidade de uma catástrofe pandêmica, em que um microscópico vírus dizimaria a civilização humana. Assim, pode-se afirmar categoricamente a existência da ideologia como fator matriz geradora que regula a relação entre o visível e o invisível, o imaginável e o inimaginável, bem como as mudanças nessa relação”, diz Zizek.
O filósofo supracitado, propõe então que, “Devemos viver até morrer. Lutar contra a pandemia não através do abandono da vida, mas como uma forma de viver com a maior intensidade”. “A pandemia de Covid-19 nos deu uma lição sobre nossa mortalidade e nossos limites biológicos. Eis um momento de sabedoria bombardeado pela mídia: devemos abandonar o sonho de dominar a natureza e aceitar nosso modesto lugar nela”.
“Haveria uma lição maior do que ser humilhado e praticamente reduzido à impotência por um vírus – um primitivo mecanismo autorreprodutor que alguns biólogos sequer consideram uma forma de vida? Não surpreende a abundância de apelos por uma nova ética da humildade e da solidariedade global”. Questiona Zizek.
Ele mesmo tenta nos responder em forma de indagação. “Mas é realmente essa a lição a ser aprendida? E se o problema de viver à sombra de uma pandemia for exatamente o oposto: não a morte, mas a vida, uma vida estranha, que se arrasta, na qual não podemos nem viver em paz nem morrer rapidamente?”
“Note como a perspectiva temporal se altera: na primavera de 2020, as autoridades frequentemente diziam que “em duas semanas, tudo deve melhorar”; então, no outono de 2020, eram dois meses; agora, é mais ou menos meio ano (no verão de 2021, ou até mesmo depois, as coisas vão melhorar); já se ouve vozes que colocam o fim da pandemia em 2022, até mesmo em 2024… Cada dia traz novas notícias – as vacinas funcionam contra as novas variantes, ou talvez não; a Sputnik russa é ruim, mas, logo após, ela até parece funcionar bem; há um grande atraso no suprimento de vacinas, mas a maioria de nós será vacinada até o verão… Essas oscilações infinitas obviamente geram um prazer em si mesmas, fazendo com que viver a miséria de nossas vidas fique mais fácil”. (Zizek, 2021).
Como espectros do capitalismo neoliberal, como párias consumidores de BBBs que sem ao menos saber, dado que estamos alienados pelo consumo, do próprio programa - e jogando com ele ao votar - que nos transformam em consumo e consumidores de si mesmos. Assim como a dos brothers, será a nossa vida pandêmica? Estamos fadados e viver confinados e digladiando uns contra os outros como a fantasmagórica casa famosa? Ao que tudo indica e a visão de mundo do Zizek revela parece que sim, já estamos num Grande Big Brother (referência ao livro 1984), com os famigerados paredões (o termo faz referência a uma forma de fuzilamento usado pelos militares para matar); com as mentiras, trapaças, egoísmos, medos, angústias?
Caso a resposta seja sim, não haverá um novo normal, mas o normal modelo BBB. É a lei da selva, o mais astuto, perigoso, mal caráter vence, com os votos populares; assim é também a vida pandêmica. Assim está sendo colocado, via BBB, o novo normal, viver e conviver com a tragédia cotidiana entre a vida e o “paredão”. Vamos, sim, viver até morrer, mas com essa nova realidade de morte em vida (Severina?).
Consumidores do próprio Planeta e da própria Vida. No fim, seremos todos consumidos pelo capitalismo neoliberal e sua ideologia galáctica, ou por um vírus.
Que Zizek nos resgate e Xeque Mate.
*Professor adjunto da UFMS, campus de Nova Andradina, curso de História.
Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova
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